Interação dos Transtornos Trato Digestivo-Cérebro e o Processo ROMA V
Prof. Dr. Ulysses Fagundes Neto
A renomada revista Gastroenterology publicou, em 2026;170:1083-98, um artigo sobre o estado da arte intitulado “Disorders of Gut–Brain Interaction and the Rome V Process”, de Drossman D.A. e cols., que abaixo passo a resumir em seus principais aspectos.
A interação dos Transtornos trato digestivo-cérebro (TTD-C) previamente referida como Transtornos funcionais gastrointestinais tem sido historicamente pouco compreendida. Embora os médicos tenham observado esses sintomas nos seus pacientes por mais de um século, as capacidades diagnósticas padrão apenas emergiram nas últimas décadas por meio dos Critérios de Roma, os quais, partiram de uma visão simplista e reducionista para um modelo biopsicossocial mais detalhado. Inicialmente foram considerados primariamente como transtornos da motilidade, porém, o conhecimento científico emergente proporcionou uma compreensão mais abrangente dos distúrbios envolvendo a neurogastroenterologia, alterações do microbioma gastrointestinal, a ativação imunológica e as reações aos alimentos, tudo em conjunto agindo através das interações cérebro-trato digestivo.
Estabelecida nos primórdios dos anos de 1990, a Fundação Roma tem sido um instrumento de transformação para uma compreensão e manejo dos TTD-C.
Uma conquista chave foi a mudança desde um diagnóstico por exclusão para uma abordagem de diagnóstico positivo padronizado, o qual facilitou o desenvolvimento de ensaios clínicos e futuros esforços de investigação.
Desde que os critérios de Roma IV foram publicados, em 2016, a ciência sofreu uma grande evolução, e, agora é chegado o momento de introduzir uma conceituação global avançada dos TTD-C, com atualização dos critérios diagnósticos e manejo de conduta, também incorporando avanços críticos na fisiopatologia dos TTD-C, e, bem como, detalhando novas recomendações terapêuticas.
Definição dos Transtornos da Interação Trato Digestivo-Cérebro
A antiga denominação “Transtornos Gastrointestinais Funcionais” foi substituída, em 2016, porque o termo “Funcional” foi atribuído por ser uma entidade “não orgânica” ou psiquiátrica, e, mesmo não legitima. Esta percepção baseia-se desde o histórico princípio dualístico que distingue entre “transtornos orgânicos”, considerados tangíveis, e, “transtornos funcionais”, os quais são pobremente compreendidos, e geralmente rotulados como psiquiátricos. A compreensão dos TTD-C tem se modificado ao longo dos anos, desde a ausência de doença orgânica vista como psicossomática, para transtornos da função gastrointestinal e desregulação do eixo trato digestivo-cérebro. A presente definição dos TTD-C evidencia-se consistente com a evolução da compreensão dos múltiplos processos fisiopatológicos que determinam a TTD-C (Tabela 1).
A Tabela 2 apresenta a lista dos 34 TTD-C adultos e dos 22 TTD-C pediátricos estabelecidos pelos critérios Roma V. Algumas adições e modificações foram realizadas baseadas em evidências científicas recentes.
Critérios Clínicos de Roma
Em um esforço para abordar os diferentes aspetos clínicos, foi revisado o critério padronizado Roma para seu uso na prática diária, o qual está resumido na Tabela 3.
Modelo Biopsicossocial do TTD-C
A figura 1 pode ser utilizada como padrão para fornecer uma breve introdução dos conceitos biopsicossociais dos critérios Roma V (Figura 1).
Proposta do perfil clínico, de acordo com a intensidade dos sintomas relatados pelo paciente, na SII (Tabela 4)
Conclusões
Os critérios do Roma V são a culminação de um esforço de 7 anos incorporando 144 investigadores e clínicos internacionalmente reconhecidos, representando 27 países participantes em 25 comitês. Levando-se em consideração um olhar sobre o passado deste processo, as informações obtidas são profundas, embora ainda haja mais dados para serem aprendidos. Os próximos 10 anos muito provavelmente trarão consideráveis novos avanços nas nossas compreensões e tratamentos destes TTD-C. Quando isso ocorrer, nós novamente revisaremos as informações, e, desta forma nós avançaremos para os critérios de Roma VI. Nossa missão é ajudar pacientes com TTD-C, e, nós estamos nos movimentando para alcançar este objetivo. O processo critérios de Roma é dinâmico, e nós vislumbramos executar futuras atividades desenhadas para melhorar a ciência dos TTD-C e os cuidados com os pacientes.
Referência Bibliográfica
- Gastroenterology 2026;170:1083-98.





