Abordagem da anemia nas doenças gastrointestinais: uma posição sobre o estado da arte pelo Comitê de Gastroenterologia da ESPGHAN (Parte 7)
Prof. Dr. Ulysses Fagundes Neto
A renomada revista JGPGN publicou, em 2025;80:510-32, um artigo sobre o estado da arte intitulado “Approach to anaemia in gastrointestinal disease: A position paper by the ESPGHAN Gastroenterology Committee”, de Broekaert IJ e cols., que abaixo passo a resumir em seus principais aspectos.
6.2.2. Ferro terapia por via oral
As preparações orais de ferro são relativamente baratas e facilmente disponíveis, porém, podem causar efeitos colaterais gastrointestinais, tais como: constipação, diarreia, dor abdominal e náusea, bem como, também podem causar algum efeito sobre a microbiota intestinal. A dose recomendada para a criança varia de 2 a 6 mg/kg/dia administrada em 1 dose diária, não excedendo a dose recomendada para adultos de 100mg de ferro elementar por dia. Ferro é recomendado ser ingerido em jejum por pelo menos 1-2 horas antes das refeições, para minimizar o bloqueio da absorção duodenal, evitando assim que produtos lácteos possam interferir na absorção do ferro. A suplementação com ácido ascórbico pode aumentar a absorção do ferro, e, por outro lado, inibidores da bomba de próton podem prejudicar a absorção do ferro.
A duração da terapia oral com ferro é variável e deve ser guiada pela intensidade da anemia no início do tratamento e a resposta do paciente, mas ela deve usualmente perdurar entre 8 e 12 semanas. A resposta ao tratamento com o ferro deve ser avaliada após 2 a 4 semanas da terapêutica, tendo como objetivo o aumento de pelo menos 1g/dL dentro de 2 semanas, ou, 2g/dL em 4 semanas. Antes de finalizar o tratamento devem ser avaliados os valores da hemoglobina e da ferritina, para confirmar uma resolução completa da deficiência de ferro.
6.2.3 Ferro parenteral
As preparações de ferro parenteral se constituem em complexos de ferro ligados a carboidrato consistindo em coloides ou nanopartículas esféricas ligados a um carboidrato. O papel da ligação com o carboidrato é para formar uma concha, a qual varia em estrutura, entre as preparações, que serve para estabilizar o core, e prevenir ou retardar a liberação do ferro bioativo livre para a circulação sanguínea. Estes complexos são captados pelos macrófagos, e, seguindo uma degradação posterior, o ferro é liberado para o compartimento intracelular. Este ferro, é então exportado via ferroportina e ligado à transferrina para um transporte posterior. O ferro não utilizado é estocado sob a forma de ferritina. A estrutura em concha do carboidrato determina a estabilidade do complexo. Formulações, tais como: ferro sacarose e gluconato férrico são menos estáveis resultando na liberação do ferro para o plasma. O ferro liga-se a transferrina, porém, quando a transferrina encontra-se saturada o ferro não ligado a transferrina pode provocar um estresse oxidativo e como consequência pode surgir uma reação de hipersensibilidade tipo I. Por esta razão, estes agentes devem ser infundidos vagarosamente e administrados a uma dose mais baixa por infusão, quando comparados com as novas preparações mais estáveis, tais como: carboximaltose férrica e ferumoxytol. Ferro intravenoso deve ser preferencialmente administrado quando a enfermidade se encontra em remissão da DII, devido a um potencial efeito adverso por excesso de ferro, o que pode ocorrer quando o ferro é administrado durante o processo inflamatório ativo.
6.2.4 Indicações para Transfusão de Sangue
Inexistem guias de conduta sólidas para indicar a transfusão de sangue nas crianças com enfermidade gastrointestinal e anemia. A decisão para se realizar a transfusão deve-se basear na estabilidade do paciente, perda de sangue concomitante e pela rapidez do desenvolvimento da anemia. Um limiar de 7-8 g/dL foi sugerido para crianças com DII.
- Resultados e Conclusões
Amenia permanece um desafio diagnóstico nas crianças com enfermidade gastrointestinal, posto que há várias causas que podem provocar uma diminuição dos níveis da hemoglobina. A terapia inicial nem sempre pode alcançar diretamente o sucesso desejado. Este artigo de recomendação tenta facilitar uma abordagem diagnóstica correta considerando-se o amplo espectro de diagnóstico diferencial para estabelecer opções terapêuticas eficazes avaliando vantagens e desvantagens, assim como possíveis falhas observadas ao longo das mais recentes publicações. Tendo em vista a importância da anemia na rotina clínica, algoritmos diagnósticos e terapêuticas poderão fornecer importantes contribuições para o tratamento de crianças com enfermidade gastrointestinal e anemia. Recomendações e sugestões práticas são baseadas nas evidências pediátricas disponíveis tomando-se por base estudos realizados em pacientes adultos e na literatura quando necessários, porém, onde a evidencia ainda estiver em falta, as recomendações devem se basear na opinião de experts.
FIM
Referências Bibliográficas
- Broekaert IJ et al – JPGN 2025;80:510-532
- Gallagher PG – Blood 2022;140:571-593
- Dore MP et al – J Clin Med 2023;12:4797
- Lobbes H et al – Nutrients 2022;14:673
- Nielsen O et al -Nutrients 2018;10:82
